A crise financeira internacional e a Mega-Sena de Novo Hamburgo
Tudo a ver. Os labirintos da crise financeira internacional se entrecruzam com os do falso “bolão” Novo Hamburgo, em Rio Grande do Sul. Entender a crise é fácil. Há textos técnicos e descrições cheias de humor mórbido nos sites de busca. Difícil é saber, porque a exposição das vísceras do sistema financeiro não foi objeto de um profundo ataque pelo mundo do trabalho.
Genericamente, o banqueiro norte-americano tem dois tipos de clientes: o prime e o subprime. O primeiro é, em sua maioria, branco, tem emprego estável, propriedades imobiliárias, mobiliárias, reservas bancárias e é de fácil encaixe no mercado de trabalho e tem dois ou três carros do ano. Já o subprime é o típico branco pobre, latino, asiático ou negro, com emprego precário, endividado e sem assistência médica.
O banco empresta, com prosa sedutora, para esse subprime. Para se resguardar, o dito banco comercial oferece o “ativo” (na verdade um crédito de quitação duvidosa) a um banco de investimentos, que uma vez aceita, se desdobra em operações financeiras para cobrir outros contratos (hedge funds), com destaque para os documentos usados como garantia (derivativos), comprados por quem quer se “proteger” de outras operações. Surge então, uma rede de dependências sem garantia.
A pirâmide, no entanto, tem bases fracas e a sua quebra tem efeito dominó. Foi aí que o “estado-máximo” socorreu os bancos: U$ 15 trilhões só para salvá-los. Assim, estatiza-se o prejuízo da agiotagem financeira e o devedor subprime (aquele branco pobre, latino, asiático ou negro, com emprego precário...) perde o pouco que tem, amplia suas dívidas e é acusado moralmente pela crise. Na sequência, empresas como a General Motors, da dita economia real, também tiveram que ser socorridas. Agora, passado o pior da crise, nada de estado-mínimo. É o capitalismo sem risco. Mais escândalos: executivos da banca quebrada recebem polpudas indenizações para cederem os cargos.
Então a pergunta que fica é: o que há de novo nessa crise? Pelo visto, só o tamanho. Fora isso, nada tem de excepcional. Banco sem lastro físico (ouro, papel-moeda etc) é a regra, e não a exceção. A distância é grande entre o dinheiro realmente depositado em um banco e o que é contabilizado. Já sabemos: se todos os correntistas sacarem o valor que depositaram, num mesmo dia, quebra-se. Parte disso está “girando” na ciranda financeira.
A atividade bancária é isso: irrealidade, blefe, enganação e operações fraudulentas. Eis porque o “bolão” de Novo Hamburgo é análogo às crises financeiras. Não existia efetivamente. Se não fosse sorteado, não haveria problemas. Mas, foi. O que assusta é que somos presas fáceis desse cassino.
Luis Carlos da Silva – Sociólogo e assessor do bloco PT-PMDB-PCdoB na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG)

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